Não sei se sou eu que caminho a passos largos para a velhice, e para a utilização de fraldas, ou se são estas gerações mais novas que com acesso facilitado a tudo e mais alguma coisa têm excesso de informação e não a sabem seleccionar, mas ontem, um rapaz de 21 anos perguntou-me "Quem é o Eduardo Mãos de Tesoura?" 


Aí o meu cérebro parou durante uns segundos a tentar digerir aquela pergunta. Confesso que me faz confusão alguém não conhecer a personagem, a comovente história que protagoniza, e não fazer ideia de quem é Tim Burton e desconhecer o seu belo e tortuoso universo cinematográfico. Para mim, isto é quase um dado normalmente adquirido, conhecer isto tudo. 

Lá expliquei ao rapaz, assim por alto, a história de Edward Scissorhands. Ficou interessado e atirou um "Tenho que sacar, então!". Aquilo atingiu-me  como se levasse um soco no estômago. A primeira vez que vi o filme deveria ter para aí uns dez anos e foi numa "Lotação Esgotada" da RTP1. Para o voltar a ver, tive que esperar que um amigo meu mo emprestasse, em cassete VHS, que ele tinha gravado quando foi exibido. 



Eu não gosto muito de criticar gerações mais novas porque acredito que cada uma tem as suas características próprias e o nosso país (e o mundo) também vai evoluindo e isso reflecte-se nas mesmas. Mas, não consigo aceitar as justificações com que me presenteiam para não terem visto grandes clássicos do cinema (já nem falo na literatura) tendo em conta a facilidade com que hoje em dia conseguem obter tudo. 

PS: Eu nem referi a parte da cassete VHS ao rapaz com medo que ele me perguntasse o que é isso do VHS... :|

Comentários

Pi Maria disse…
Bem tenho de admitir que já estou um bocado farta desse tipo de discurso. "Ai como é possível não terem visto este filme?!" "Ai como é possível não ter lido este livro?!" "Esta geração hoje em dia está mesmo perdida, blábláblá"

Desculpa mas isso já irrita, e nem estou a falar de ti, o que disseste nem foi mau, o problema é que há muita gentinha por aí com um discurso mil vezes pior que este, todos de nariz empinado, a dizer "Ai, enfim, não sei como é possível não ter visto X filme" Vai-se a ver e o puto do filme é de 1960 ou coisa assim, fogo eu acho que não se deve exigir a esta nova geração ver filmes mais antigos do que eles próprios! Porquê? Porque justificadamente não há interesse; afinal porque raio vão querer eles ver um filme com fraca qualidade e efeitos merdosos (era o que dava na altura)?! Lá por X filme ter marcado uma geração, não quer dizer que tenha de marcar outras. Temos de pensar no contexto, no ano em questão, nas mentalidades. Por exemplo, hoje em dia há bons filmes, filmes que de certeza serão considerados ótimos filmes durante anos e anos, esses sim considero que devem ver ou pelo menos conhecer de passagem!

Sublinho que claramente conheço o filme que estás a referir, mas isso sou eu que sou fã dos filmes de Tim Burton. No entanto há filmes antigos que nunca vi, olha temos pena, supostamente são memoráveis e fantásticos mas eu tenho mais que fazer do que ver filmes a preto e branco (sim já reclamaram comigo por eu não ter visto filmes desse género). Por exemplo, só há um ano para aí vi o "Padrinho" (I/II/III), adorei apesar de ser antigo (o primeiro é da década de 70), só vi há um ano porque nunca tinha calhado de ver até à altura. Vou exigir aos miúdos de 16 anos verem os filmes?! Claro que não, fogo. Eu ultimamente tenho visto bastantes filmes antigos, bons filmes que marcaram bastante, por curiosidade, porque me quero informar, mas isso sou eu e não exigo este tipo de comportamento a ninguém!

É o mesmo raciocínio com os livros: "Ah e tal como é que não conheces este livro de 1940? E este que fala disto e bláblá..." Opá nem todos somos iguais, eu nunca na vida vou pegar em livros que não me interessam só porque dizem que é um clássico filosófico. Se essa gente soubesse os calhamaços que eu tenho de ler para a universidade e vida prática engoliam as palavras :)

Desculpa o testamento, mas já estou farta de criticarem esta geração por não conhecerem filmes e livros mesmo muito antigos. Desculpa mas eu acho que eles não têm obrigação, cada um sabe de si, cada um lê e vê o que quer. Eu tento me manter informada, mas não critico quem não queira ver pex "Singin' in the Rain", opá eu vi e adorei mas o raio do filme é de 1952 :D

Beijinho
Podes me bater se quiseres :)
The Coiso disse…
Acho que és a vencedora do post mais comprido neste blog desde que eu me lembro :)

Entendo o teu desabafo e concordo com ele em determinados pontos. Obviamente que eu que sou da geração de 80 também não corri de fio a pavio todos os clássicos do cinema e da literatura. Isso tem muito a ver com a personalidade e gostos de cada indivíduo.

A questão (que se calhar eu não soube explicitar no post) tem mais a ver com o facto de estas gerações mais novas desconhecerem por completo determinados autores, obras e factos que fazem parte de uma espécie de senso comum universal. Por exemplo, podem nunca ter lido Kafka, mas saberem quem é. Mozart, também não são obrigados a ouvir, mas não compreendo como não o conhecem.

E pior que isso é rotularem como "antigo" e recusarem-se a conhecer por ser "antigo". O que se torna particularmente grave quando na actualidade conseguem facilmente obter informação sobre quem e o que quer que seja.

Obviamente que eu também estou a generalizar. Não se pode catalogar assim uma geração. Nem todos os miúdos de 20 anos desconhecem as coisas "antigas" (como é o teu caso), mas quase que apostava um rim em como a grande maioria não conhece e não quer conhecer.

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