Sobre o Super 8 (e parece que também sobre o Buried...)



É ok. Confesso que estava à espera de algo mais elaborado, que prendesse mais. Não haja dúvidas, o argumento é bom e está bem escrito pela forma como vai revelando as histórias por trás da história. Contudo, humpf... não consegui deixar de sentir um certo travo amargo de desilusão. Tendo o dedo do JJ Abrams esperava que surpreendesse de alguma forma, que trouxesse algo de inovador (porra, estamos a falar do tipo que se lembrou de coisas como "Lost" ou "Cloverfield" e que, à sua maneira, marcaram a cultura popular). Nos dois exemplos que referi, o espectador andava perdido, a tentar perceber o que é que se estava a passar e o que é que aí vinha. Em "Super 8", se estivermos a seguir o filme com atenção, percebemos facilmente o seu desfecho. 

Talvez o facto de ter os nomes de Abrams e Spielberg metidos ao barulho tivesse ajudado a elevar as expectativas. Além da campanha de marketing que se seguiu e as diversas críticas positivas que fui lendo por aí. É um bom filme, sem dúvida, mas realizado e produzido por quem foi não se poderia esperar outra coisa. Há, no entanto, aspectos que me agradaram. O empenho dos miúdos que protagonizam a história em realizar o seu filme é daquelas coisas que nos remete para a infância e em que não vemos barreiras para atingir os nossos objectivos em lado nenhum. Dá verdadeiramente vontade de agarrar numa máquina e andar por aí a filmar.


Em contrapartida, vi há uns meses um filme espanhol (porque foi produzido e filmado em Espanha e realizado por um nuestro hermano, embora o argumento seja de um norte-americano e o protagonista, Ryan Reynolds, igualmente da terra do tio Sam) chamado "Buried". Custou cerca de 3 milhões de dólares (uma autêntica pechincha - gasta-se mais dinheiro a filmar pilotos para séries televisivas) e tem um único cenário: um caixão de madeira. 

Lá dentro está Paul Conroy (o referido Reynolds, que anda a ver se lixa a carreira entrando em coisas indiscritíveis como "Green Lantern". Really Reynolds? Really?), um camionista norte-americano que está a trabalhar no Iraque e que depois de um ataque à coluna onde seguia desperta dentro de uma espécie de caixão de madeira, enterrado vários palmos debaixo de terra. Junto a si, alguém deixou um telemóvel e um isqueiro. A partir daqui observamos a luta contra o tempo para sair vivo da própria sepultura. A parte interessante é que os 95 minutos que o filme dura são todos, sem excepção, passados dentro do caixão. À partida pode parecer algo inconcebível, aborrecido mesmo, mas o guião está tão bem escrito que através das conversas telefónicas que Paul tem (haveria de ter o telemóvel para quê? Para ouvir música?) o argumentista consegue criar cenários e cenas de tensão insuportáveis. E, lá está, até ao final do filme ficamos sempre na dúvida sobre o desfecho do mesmo. Vai safar-se? Vai morrer? Vão encontrá-lo a tempo? 


Ou seja, deixa um tipo preso, na expectativa, ansioso para saber o que vai acontecer a seguir. E isto é uma das regras de ouro para qualquer argumentista. Manter o espectador curioso sobre o que vai acontecer a seguir.