A questão de fumar

Somos mesmo um país de tristes. Mas tristes no sentido de atrasados, não na tal tristeza que já faz parte da nossa raiz histórica. Isto a propósito da afamada lei do tabaco que entrou em vigor este ano. Começou bem, com o próprio responsável máximo da Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica a ser apanhado a fumar num local proibido.

Hã?! Ai, afinal parece que por aquela altura ainda havia uma indefinição qualquer que não incluía os casinos na lista de locais onde é proibido fumar. Que conveniente…

Depois da anunciada revolução ficou (quase) tudo na mesma. Os cafés, por exemplo, autorizam o acto de fumar sem obedecerem à lei, defendendo-se com sistemas de ventilação completamente ineficazes ou mesmo sem nenhum. Mas, quem é que se lembrou de lançar a lei primeiro e preocupar-se com os pormenores depois? Tipicamente português. O importante é fazer, o resto depois vai-se tratando. Como as nossas obras públicas. O importante é inaugurar, depois vai-se pensando nos acabamentos. Que outro país do mundo faz cerimónias tão otárias como a “colocação da primeira pedra”?

Mas a introdução desta lei veio ajudar a mostrar algo que já era bem perceptível. A completa falta de respeito que os fumadores têm por quem não fuma. Antes do início do ano, se alguém se sentisse incomodado pelo fumo e chamasse a atenção ao fumador, a resposta mais comum era que ele teria o direito a fumar e que quem estivesse mal que se mudasse. Depois do início do ano, está (quase) tudo na mesma. Continua a falta de respeito pelos outros. A única preocupação é matar o vício. Os outros, os que não fumam estão-se, claramente, maribando para eles.

Mas se alegam o direito de que podem fumar, eu (que não fumo) também posso alegar o direito a não querer levar com o fumo nocivo (que o é) do vício deles.

É facilmente perceptível porque é que está criado todo este quadro de indefinição em torno da Lei do Tabaco. Já viram quantos milhões de euros movimentam as tabaqueiras por ano? Quanto ainda ganha o estado português com o tabaco, apesar das quebras dos últimos meses? E quantas pessoas que estão directa ou indirectamente ligadas ao negócio do tabaco, que ganham fortunas com isso, não estarão a fazer pressão para que a indefinição se mantenha?