Debate de ideias? O que é isso?

Ontem à tarde assisti a uma cena completamente lamentável… São situações como esta que me deixam descrente neste país, especialmente naqueles que elegemos para nos governarem…

O Rádio Clube tem, nas suas emissões regionais, entre as 16h00 e as 17h00, um espaço dedicado a um tema da actualidade (ou pertinente para a região), para o qual são convidadas figuras relacionadas com o mesmo. Na quarta-feira, o tema em debate era a subida das rendas das habitações camarárias, aqui no Porto. É um assunto que está a causar alguma polémica e a fazer com que os moradores desses bairros venham para as ruas manifestarem-se, como aconteceu na terça-feira (ver post A Voz do Povo – e o que um jornalista sofre).

Como convidados para esta hora de emissão teríamos em estúdio, Matilde Alves, vereadora da Habitação da Câmara Municipal do Porto, e Carlos Pinto, do Movimento de Utentes dos Serviços Públicos. E digo, teríamos, porque, assim que a vereadora se apercebeu da presença do representante dos moradores, recusou-se a participar no debate e pôs-se a andar…
Contactada a assessora da Câmara para se perceber porque motivo tinha abandonado as instalações, a assessora alegou de que não tinha sido dito à vereadora que estaria em estúdio com um representante dos moradores para debater aquela situação, nem que a tinham informado de que ia participar num debate….

Qual será a parte de DEBATE DE IDEIAS que a vereadora não percebeu? Será, porventura, que não conhece o significado da expressão? Se assim é, é muito grave, principalmente de alguém responsável por 15 mil inquilinos... Além disso, com quem estaria à espera de trocar argumentos? Com a nossa pivot? Lamentável…
Mais grave ainda, na minha opinião, a vereadora disse, claramente, que se negava a falar com o Carlos Pinto. Ora, deixa-me ver se percebo. Ao negar-se a ouvir o representante dos moradores, está também a negar-se a ouvir os habitantes dos bairros… aqueles que votaram no seu presidente, que lhe entregou aquele pelouro (o da Habitação) para melhorar as condições de vida daquelas pessoas.
Se os responsáveis que podem realmente fazer algo para resolver os nossos problemas se recusam a ouvir-nos, a quem é que nos vamos queixar? A quem vamos recorrer? Deve ser este o pensamento das pessoas que se concentraram na passada terça-feira, em frente ao edifício da Câmara.
Será que a vereadora não sabe que um dos princípios do jornalismo é precisamente ouvir sempre todas as partes intervenientes na história? Ou assumiu que o Rádio Clube Português, bem como as restantes rádios e outros órgãos de comunicação social, servem apenas para “despejar” comunicados e discursos de ocasião quando lhes é conveniente?

Estranho é o estado deste país quando chegamos ao ponto de os nossos governantes se recusarem a dar satisfações sobre os seus actos. Pior ainda quando esses actos nos afectam directamente.

Se calhar estou a ficar velho, mas cada vez simpatizo mais com aqueles velhotes que usam sempre expressões como “o que eles querem é poleiro” ou “assim que lá estão já não se lembram de nós”. Será que é verdade? Prefiro pensar que são afirmações de gente acomodada e conformada com a vida que têm… Será que assim é? Continuo a pensar que sim. Mas sempre me chamaram “optimista”.